Thursday, August 18, 2005

O Milagre das Passadeiras ou Os Peões Gloriosos

Há coisas que acontecem nas passadeiras que não têm explicação, de tão incríveis!

Os peões fazem proezas fantásticas. Eles caminham corajosamente, com um ar desempoeirado, emproado quais galináceos, como se fossem os donos daquela passadeira.
Atiram-se para a frente com a determinação que não têm para a vida. Acordam de manhã a pensar: “Sinto-me infeliz! Sou um ser miserável! Mas, ah, quando chegar à passadeira…!”. Vingam-se, de todos os seus problemas, ali. E, quando atravessam, quase os ouço dizer: “Vais ver quem é o maior! Nesta passadeira, mando eu!”
E “mandam-se para a frente” (como se existisse um ideal de emancipação, recalcado), com uma convicção, uma firmeza elogiáveis. Sinceramente, elogiáveis. Olhem que é necessário coragem!

Outro aspecto interessante, desta travessia, é que os peões acreditam ser fluorescentes, e homologados pela norma europeia EN471.
Avançam gloriosamente, passo-a-passo, luzidios, brilhantes, estrelados e, das suas alturas, nem nos dignam com um olhar. Passam, simplesmente, passam-se.

Eu acho imensa piada. Especialmente, em manhãs como a de hoje, em que não os vejo, porque sou estúpida que nem uma porta. Sim, o problema é meu, o que julgam? Eu tenho a obrigação de, apesar dos reflexos no vidro, dos “fantásticos peões emancipados” saírem da sombra e simplesmente não se verem, vê-los à distância.
Eu diria mais, que tenho a imensa obrigação de pressenti-los, qual telepatia com, pelo menos, 5 minutos ou 1 Km de antecedência. Mas, como tal não acontece, a culpa é minha! Ou vocês não têm andado a ouvir o mais recente slogan, cujo objectivo é “continuar a progressiva morte dos peões na estrada”: “Avance, sem ver ou ser visto!”?

Depois irrito-me, porque fico a pensar se terá alguma coisa a ver com barreiras protectoras invisíveis, como nos filmes de acção, ou como alguma telenovela, ou música pimba que, como não vejo, nem ouço, desconheço e sou, portanto, ignorante.
Ou será o efeito protector da tinta branca pintada em alcatrão?

Nunca se sabe se não será a vontade que, os “incríveis peões justiceiros”, têm de morrer quais mártires, para que todos se lembrem das suas gloriosas proezas ao atravessar uma qualquer passadeira e, quem sabe, ser recebido por dezenas de virgens no “Céu das carochinhas”.

Posto isto, recordo-me de uma célebre frase de Epitecto: "É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe."
É evidente que me refiro a mim!

6 comments:

Nikki said...

Já vi que te deparaste com super herois das passadeiras um dia destes... Cá para mim,o que lhes falta é amor à vida...
***

Low Carb Ketogenic Diets said...
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Barbara said...
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jacko492 said...
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JCNunes said...

... por vezes é a únic forma q temos, enquanto peões de atravessar sem ter de esperar uma eternidade que algum condutor se digne a parar...:(

Ze Carlos (peão e condutor)

Barton Fink said...

Tens razão, é impossível!
Esses gloriosos continuam a arrancar nhanhanhãs da tua alma.