É um relógio de cozinha prateado.É giro, coitado,
Foi vigoroso no passado.
Mas um dia nas mudanças,
Desfaleceu.
Na gaveta foi arrumado,
Pois não foi feito p’ra tais andanças.
Lá ficou meses, o pobre… esquecido.
No outro dia o desgraçado,
Para grande espanto meu,
Foi apanhado acelerado
A tic-taquear, ainda arrecadado,
Tics-tacs apressados
De relógio arrependido.
Foi de imediato acertado
E colocado no seu lugar:
De Honra, lá no alto,
Que nesta casa, valoriza-se o esforço.
A princípio, quase me convencia
Atrapalhado,
Ecoava os tics mais alto que os tacs
Eu diria
Que até gritava de alegria
Que até a cozinha reluzia
De empatia
Pelo amigo retornado.
Mas o infeliz não dá vazão!
Ele tenta… mas não consegue.
Tic-tac e pausa
Tic-tac e pausa
Pouco a pouco o atrasado
Vai perdendo a razão:
Diz-nos horas que não são!
Trabalha e pára
Trabalha e pára
Deve ir beber cafés
E fumar cigarros.
Pausa mais do que trabalha,
E isto assim não pode ser!
Só dá prejuízo o miserável
Tem de ser despedido!
Relógio que bate mal,
À gaveta está confinado.
Doido,
Desiludido,
Vai de novo para o castigo!
Se se aguentar sossegado…
Talvez um dia lhe mude a pilha!
in Crónicas de Carla
Carla Trindade


