Friday, January 20, 2012

O Relógio Que Bate Mal!

É um relógio de cozinha prateado.
É giro, coitado,
Foi vigoroso no passado.
Mas um dia nas mudanças,
Desfaleceu.

Na gaveta foi arrumado,
Pois não foi feito p’ra tais andanças.
Lá ficou meses, o pobre… esquecido.

No outro dia o desgraçado,
Para grande espanto meu,
Foi apanhado acelerado
A tic-taquear, ainda arrecadado,
Tics-tacs apressados
De relógio arrependido.

Foi de imediato acertado
E colocado no seu lugar:
De Honra, lá no alto,
Que nesta casa, valoriza-se o esforço.

A princípio, quase me convencia
Atrapalhado,
Ecoava os tics mais alto que os tacs
Eu diria
Que até gritava de alegria
Que até a cozinha reluzia
De empatia
Pelo amigo retornado.

Mas o infeliz não dá vazão!
Ele tenta… mas não consegue.
Tic-tac e pausa
Tic-tac e pausa
Pouco a pouco o atrasado
Vai perdendo a razão:
Diz-nos horas que não são!

Trabalha e pára
Trabalha e pára
Deve ir beber cafés
E fumar cigarros.

Pausa mais do que trabalha,
E isto assim não pode ser!
Só dá prejuízo o miserável
Tem de ser despedido!

Relógio que bate mal,
À gaveta está confinado.
Doido,
Desiludido,
Vai de novo para o castigo!

Se se aguentar sossegado…
Talvez um dia lhe mude a pilha!

in Crónicas de Carla
Carla Trindade

Thursday, January 19, 2012

tudo se relativiza

os vestidos bonitos e coloridos em saldos nas lojas
não apetece experimentar

o pequeno baby-grow pendurado na secção de criança
uma lágrima

os bolos da pastelaria que derretem deliciosos na montra
não apetece comer

o casal de rapazes que se abraça nas ruas da baixa
livres

o cheiro dos artigos da papelaria Fernandes que nos recordam a Primária
a mão, crescida, na montra

a linguagem gestual de dois senhores à entrada do metro no Chiado
conversam tanto

as longas escadas que sobem até à Rua Nova do Almada
devagar

o lindo pastor alemão que guia o dono pela trela, a fitar o chão atentamente
não apetece fazer festas

A Fnac que exibe o Moulin Rouge de 52 num LCD na montra
dançar,
é bom dançar...

as luzes que se acendem ao escurecer
fica tudo mais lindo

a amiga que não devolve o telefonema
era bom ouvir

a pessoa que se ama que corre ao nosso encontro
beijo,
lágrimas,
choro

o carro que nos leva a casa
e nos protege de tudo num abraço

tudo o que é mau finalmente perde importância
e o que é bom reforça em nós o desejo de durar para sempre

ficamos reduzidos a uma enorme insignificância... um mês e meio de espera para saber por onde ir

'vamos lá ver o que é! vamos fazer um exame!'

e tudo na vida passa a ser relativo.

Sunday, January 15, 2012

Não Estou de Acordo com o Acordo...

Nunca me perguntaram o que eu achava. Deve ser por isso que não sinto nenhuma afinidade por ele! A maior confusão é ser obrigada a aderir a um Acordo que me obriga a escrever mal para estar correcta. Sei lá se é teimosia... Não gosto de escrever mal, ponto final.

As vantagens vão para aqueles que nunca aprenderam a escrever bem português, que agora têm a desculpa perfeita para continuarem a escrever mal!

O meu namorado vai ter dificuldade em explicar que lhe faltam fatos e não factos! Isto nem 'acta' nem 'desata'! E a Optimus deve com certeza considerar a alteração de designação social...

Depois não se admirem de ouvir afirmar teimosamente que Benvindos, Bem-Vindos e Bem Vindos, podem escrever-se de todas estas maneiras que estão sempre correctas quando se quer dar as Boas vindas a alguém! Nunca mais se vai aprender português correcto neste mundo!

'Registros' por exemplo, no Brasil, quando em Portugal os CTT só enviavam 'Cartas Registadas Com ou Sem Aviso de Recepção'. No pós acordo, nós vamos continuar a enviar 'registos' e os brasileiros 'registros'! Quem pergunta a estes parvalhões que fecharam o Acordo qual foi o critério?

Parece que o Acordo mudou o que Portugal escrevia. Isto demonstra uma clara incapacidade nacional para o negócio. Portugal passou a ser aquele tótó que diz que sim a tudo sem questionar. Aquele marido que não diz que não, porque tem medo de levar com a panela nas trombas. Ou o pai que diz que sim a tudo com vergonha das birras em pleno hipermercado, apinhado em fim do mês, com o carrinho de compras carregado dos caprichos da criança que ainda nem sabe falar!

Lamento mas não gosto de 'ver-me grega' a 'gastar o meu latim' com impropérios malditos! 2000 faltas e 7000 erros ortográficos era o que o Acordo precisava para 'arrepiar caminho'!

Tenho imensa pena que tenham feito uma espécie de amor 'ecuménico' com a língua, pedindo ajuda aos PALOP e aos CPLP para nos ensinarem a escrever a língua que nós os ensinámos a falar!