Monday, November 26, 2012

Encosta ao meu ombro

Muitos casacos, malas, mochilas e chapéus-de-chuva... quase tantos quantos os passageiros prevenidos do autocarro carregado em dia de muita chuva.

Primeiro nunca mais chegava. Depois, lá apareceu, já muito cheio e para entrarmos empurrámos tanto até encontrarmos o espaço necessário a cabermos todos, condescendentes uns com os outros, já que chovia tanto.

Na paragem seguinte, saindo uns, o que permitia mais ou menos gerir o espaço e deixar entrar mais umas alminhas encharcadas, para terminar-lhes o sofrimento. E assim fomos sendo um tanto ou quanto humanos.

Até que, a jovem moça que se segurava numa daquelas pegas do tejadilho, aproveita uma travagem, e se deixa literalmente cair para cima do moço giro que ia atrás dela.

Giro, de casaco azul escuro, barba por fazer, cabelo castanho, moreno, e elegante, sorri para ela, como que entendendo que ela não podia fazer nada face à inércia... achei giro os sorrisos entre ambos e o encolher de ombros, sem nenhuma palavra, como que a anuírem mutuamente o sacrifício feliz daquele momento.

5 minutos depois, já a inércia tinha desaparecido e a moça lá continuava feliz encostada ao rapaz. O autocarro já direito e já com espaço e ela simplesmente encostada. Foi lindo ver aquele mexer de ombro dele, ainda delicado, quase que a dizer 'acorda'.

Dizem os mais modernos que isto de encostar é bom em qualquer lugar e com qualquer um.
Mas o moço é que não vai na cantiga do 'encosto à primeira vista'. Lá teve certamente a rapariga de ir procurar encosto noutro lugar. 

Já não se faz química como fisicamente!

Monday, November 19, 2012

Os Bons Filmes

Posso ir ao cinema ver um excelente filme e ter ao lado pessoas a conversarem alto, a atenderem telemóveis, a escreverem sms's que iluminam toda a sala, ou pior a devorarem pipocas numa daquelas cenas depressivas do fim do mundo de 'Melancholia'...

É mau! Por mais que se queira, não se entra na mood do filme.

Porém, posso estar a rir quase sozinha, numa sala quase vazia, como quando fomos ver Scoop no Quarteto... by the way o último filme que vi no Quarteto, esse grande Cinema!
E faz, para mim, muito mais sentido ver um filme assim... com o mano e a prima ao lado!

A verdade é que um grande filme, pode ser uma desilusão quando comentamos com o(a) nosso(a) companheiro(a) de cinema dessa noite/ tarde, e a resposta é uma daquelas em que percebemos que não gostam porque não estão a perceber nada!

Um bom filme, será sempre um bom filme!...
Mas é definitivamente melhor quando é muito bem partilhado!

Friday, November 16, 2012

Di fazê chorá ais pédras da cauçada!

(Este teisto devi sê lido em brasileiro)

Seista pela manhã, stava subindo até às Amureirás quando me déparei com o diálugo irritádo de um sinhô que trabalháva, colocando as pedrinhas da cauçada - "a senhora não vê o que o cão está a fazer?" (ele era português)

O cãozinho estava fazendo xixi pr' ais pedrinhas soutas que o sinhô mais tardi iria pégar p'ra colocar no chão.

O cãozinho não sabia e mijou ali, mas a empregada da dona do cãozinho rêspondi imediata: "O sinhô disculpe que eu não vi estava ao téléfone, viu?"

Mais u hómêm irritádo acrescentou - "está bem, mas tire o cão daí mulher!" porque a sinhora nem séquê puxava a coleira do bicho e portanto deixava acabá as nécessidadis do bicho em cima das pédrinhas que o sinhô ia ter de colocá na cauçada que todo o mundo sabi, é feita à mão!

Ele há seistas de mérrda meismo, não é?!

Tuesday, November 06, 2012

O Avô e o Som das Estrelas

Filhotes de andorinhas a piarem nos ninhos junto à minha janela, acordaram-me hoje... tem sido assim todos os dias desde que cheguei.

Por entre a fresta das persianas o Sol procurava de novo invadir-me o quarto... abri-lhe a janela e deixei-o entrar.

Cheira tão bem aqui... o ar é tão puro.

Ontem, pouco antes de adormecer, aproveitei a rua pouco iluminada e estive longamente embevecida por este céu muito escuro a contemplar a miríade de estrelas e as estrelas cadentes... e a inebriar-me com os sons da noite.

Recordei a minha infância na terra do meu pai. Fez 30 anos que aleguei, muito segura de mim que, no jardim da casa da terra, as estrelas faziam barulho sempre que cintilavam. Mas para frustração minha o avozinho não escutava nada... e deve ter revelado o argumento aos meus pais que, preocupados, vieram à vez averiguar o que se passava comigo e com as estrelas. Até que por fim o avô percebeu, sorriu e ensinou-me que os sons que eu ouvia eram os grilos.

Sabem porque eu gostava tanto do meu avozinho?
Ele ouvia-me...
Naturalmente, com tanta dedicação, acabava por compreender-me. E eu nunca o vou esquecer por isso.

Hoje sei que só compreendemos as pessoas que ouvimos...
E que só ouvimos as pessoas por quem nos interessamos.


16 de Agosto de 2010
Crónicas de Carla
by Carla Trindade

Monday, November 05, 2012

Gato do Campo

É branco diz a tia, mas passa a correr, não lhe liga nenhuma. Chama-o 'bichano' um nome comum. Eu acho que ele não gosta de nomes vulgares.

Triste, ela diz que gostava de o convencer a ficar pelo terreno, ou mesmo em casa. Era bom para um gato destes herdar uma casa de campo, ter o melhor de dois mundos. Mas a liberdade... ah que bom que é ser livre!

'É selvagem', dizemos nós, 'vai ser difícil de convencer, mas com paciência, muita paciência vais conseguir.'
A tia acrescentou logo alguma comida para se conseguir uma boa negociação.
Claro, os bichos não são estúpidos. Se para os humanos 'não há almoços grátis', para os gatos não há mimos sem almoços.

Ao principio fez-se difícil, a comida ficava lá, a tia a ver e ele não aparecia. Comia de madrugada o envergonhado. Ninguém o via. Sabia-se da sua existência ao longe no escuro da noite, à luz da lua.

Passados dois meses e o gato já come a ver a tia.
Afinal, a comida é mesmo um grande poder de negociação. Em época de crise não se pode ser muito esquisito. Até um gato destes se deixa render.
A tia já está encantada. Sabe que não se pode mexer muito que o tipo dispara numa corrida que mais parece um gato cor de burro quando foge!...

Mas já espero tudo!
Dou dois meses para sua excelência perder o que lhe resta de vergonha, entrar na cozinha, sentar-se resfolgado no lugar do chefe de família, colocar as patas traseiras em cima da mesa, e ler o jornal enquanto aguarda pelo jantar!...

Se for preciso até ladra ao cão, e bate as patas para a tia se apressar.
O bichano tem uma noite pela frente para ir ver e miar a todas as meninas... e escolher por fim a mãe dos seus filhos... não tem tempo a perder.

Gatos... andamos cá para os servir! Mas sabe bem ouvir e sentir o ronronar de satisfação.