Monday, November 05, 2012

Gato do Campo

É branco diz a tia, mas passa a correr, não lhe liga nenhuma. Chama-o 'bichano' um nome comum. Eu acho que ele não gosta de nomes vulgares.

Triste, ela diz que gostava de o convencer a ficar pelo terreno, ou mesmo em casa. Era bom para um gato destes herdar uma casa de campo, ter o melhor de dois mundos. Mas a liberdade... ah que bom que é ser livre!

'É selvagem', dizemos nós, 'vai ser difícil de convencer, mas com paciência, muita paciência vais conseguir.'
A tia acrescentou logo alguma comida para se conseguir uma boa negociação.
Claro, os bichos não são estúpidos. Se para os humanos 'não há almoços grátis', para os gatos não há mimos sem almoços.

Ao principio fez-se difícil, a comida ficava lá, a tia a ver e ele não aparecia. Comia de madrugada o envergonhado. Ninguém o via. Sabia-se da sua existência ao longe no escuro da noite, à luz da lua.

Passados dois meses e o gato já come a ver a tia.
Afinal, a comida é mesmo um grande poder de negociação. Em época de crise não se pode ser muito esquisito. Até um gato destes se deixa render.
A tia já está encantada. Sabe que não se pode mexer muito que o tipo dispara numa corrida que mais parece um gato cor de burro quando foge!...

Mas já espero tudo!
Dou dois meses para sua excelência perder o que lhe resta de vergonha, entrar na cozinha, sentar-se resfolgado no lugar do chefe de família, colocar as patas traseiras em cima da mesa, e ler o jornal enquanto aguarda pelo jantar!...

Se for preciso até ladra ao cão, e bate as patas para a tia se apressar.
O bichano tem uma noite pela frente para ir ver e miar a todas as meninas... e escolher por fim a mãe dos seus filhos... não tem tempo a perder.

Gatos... andamos cá para os servir! Mas sabe bem ouvir e sentir o ronronar de satisfação.

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